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A força sutil das boas amizades

  • Foto do escritor: Luana Folchini
    Luana Folchini
  • há 4 dias
  • 4 min de leitura

Hoje quero propor uma reflexão sobre a importância das amizades. Não pretendo fazer isso de forma grandiosa ou idealizada, mas a partir do que aprendi e que tento, todos os dias, praticar com aquelas amizades que me são caras. Amizades com as quais me preocupo, que estimo, que cuido. Relações que cultivo reconhecendo a importância silenciosa da presença, dos pequenos gestos, da constância. Porque reconheço que amizades não são apenas companhia: elas são sustentação. E, muitas vezes, proteção.

Quando se fala em prevenção de relações abusivas, costuma-se pensar em sinais de alerta, limites, autoestima, informação. Tudo isso é importante. Mas há um fator menos visível e muito potente, que nem sempre entra nessa conversa: a presença consistente de boas amizades.

Não amizades perfeitas, nem disponíveis o tempo todo. Mas aquelas que existem de forma contínua, afetiva e real. Amigas que perguntam, que lembram, que mandam mensagens frequentes, sem motivos específicos, apenas para se fazerem presentes, participarem. Que elogiam, escutam, validam. Que estão. Essa presença, aparentemente simples, pode ser decisiva.

Sabemos que a carência, a sensação de solidão, de incompletude, de falta podem levar ao estabelecimento de relações, que de início, parecem maravilhosas mas que, com o tempo, mostram sua faceta tóxica. Como eu gosto sempre de frisar: relações tóxicas ou abusivas raramente começam com agressão. Elas começam, quase sempre, com encantamento. Com intensidade. Com a sensação de finalmente ser escolhida, vista, desejada.

Aos poucos, porém, algo se estreita. A mulher passa a esperar por uma única pessoa para conversar, para ser validada, para se sentir desejada. As mensagens que antes vinham de várias direções agora vêm de uma só. Os elogios, o afeto, o interesse, a busca de apoio — tudo passa a ter um único endereço. Ou seja: o vínculo amoroso vai ocupando o lugar de rede.

Aqui, vale um sinal de atenção importante. Quando um parceiro rejeita suas amizades, desqualifica quem você ama, ou, aos poucos, vai fazendo com que você se afaste delas — seja por ciúme, críticas, ironias ou exigências veladas — algo precisa ser observado com cuidado. Mesmo que de forma "inconsciente", ele pode reconhecer o poder da rede de apoio e tentar enfraquecê-la para manter o controle. Quando as amizades se dissolvem, o isolamento aumenta. E, sem rede, o controle se torna mais fácil.

Quando isso acontece, o risco aumenta. Não porque amar seja perigoso, mas porque quando todo o afeto vem de um lugar só, a perda — ou a ameaça de perda — se torna insuportável. E assim, sair da relação também torna-se emocionalmente mais difícil.

Muitas mulheres permanecem em relações que as ferem não porque não percebem os sinais, mas porque não têm para onde ir emocionalmente. Não têm com quem dividir o dia, o medo, a dúvida, a dor.

Quando a amizade existe, algo muda. A ausência do parceiro não vira vazio absoluto. O silêncio não vira desespero. O afastamento não é vivido como aniquilamento. Ou seja: a mulher não precisa aceitar migalhas para não ficar só — porque ela não está só.


O que as boas amizades oferecem (sem alarde)

*Imagens geradas por IA
*Imagens geradas por IA

Boas amizades oferecem algo que muitas relações abusivas tentam substituir: constância sem controle.

Uma (ou mais) amiga que manda mensagem dizendo “pensei em você”; que elogia algo que não tem a ver com aparência; que percebe o silêncio, que escuta sem pressa, sem corrigir, sem minimizar, que oferece seu tempo e seu apoio.

Esses gestos constroem algo fundamental: a sensação de que não se está sozinha no mundo.

Ou seja: quando uma mulher recebe afeto de vários lugares, ela não precisa se agarrar a um único vínculo para sentir que existe, que importa, que é desejável.

Isso diminui — silenciosamente — a tolerância ao desrespeito.

Boas amigas ajudam a nomear o que, sozinha, a mulher não consegue ver. Não com acusações e julgamentos, mas com perguntas:

“Isso te faz bem?”; “Você parece diferente ultimamente.”; “Eu sinto você mais apagada.”

Essas falas não arrancam ninguém de uma relação. Mas plantam algo fundamental: a dúvida saudável. E, muitas vezes, é essa dúvida que começa a abrir uma fresta por onde a mulher pode, aos poucos, sair.

Quando uma mulher decide sair de uma relação abusiva, o que mais assusta não é a reação do parceiro — é o depois. O silêncio. A solidão. O medo de não dar conta.

Amizades não resolvem tudo. Mas sustentam.

São elas que ajudam a atravessar a abstinência emocional, o vazio, a saudade confusa. São elas que lembram, nos dias mais frágeis, quem essa mulher é fora daquele vínculo.

Um salve as amizades!

A prevenção da violência também acontece nos detalhes: nas mensagens enviadas sem urgência, nos elogios sinceros, na escuta disponível, no convite para um café, na presença que não exige nada em troca.

Boas amizades não salvam dramaticamente. Elas protegem silenciosamente. Elas lembram, todos os dias, que o amor não precisa machucar para ser intenso. E que nenhuma mulher deveria depender de um único vínculo para se sentir viva, vista ou amada. Cultivar amizades, entre mulheres, também é um ato de cuidado — e, muitas vezes, de sobrevivência.

Hoje, eu reconheço as minhas amigas-presença. E tento, todos os dias, agir assim com elas também. Não por obrigação, mas porque gosto de ser esse lugar também. Gosto de enviar uma mensagem sem motivo, de lembrar que estou aqui, de sustentar vínculos que não exigem performance, apenas presença. E gosto ainda mais de saber do poder que isso tem — às vezes silencioso, às vezes salvador. É uma via de mão dupla.

E você? Já mapeou quem são essas amigas que te atravessam com cuidado, que te lembram quem você é quando tudo fica confuso? Já mandou um “bom dia” para alguma delas hoje?

Se esse texto fez sentido para você, e se você sente que ele pode fazer sentido para mais alguém, te convido a compartilhar essa reflexão. Às vezes, tudo o que alguém precisa para não se perder no caos é saber que não está só e que há quem, genuinamente, se interessa por si.


**P.S. Para inspirar e refletir

Aqui vão algumas produções que inspiraram e ilustram o que refletimos sobre amizade, presença e cuidado:

Séries:

  • Big Little Lies — amizade, sororidade e apoio em meio a desafios íntimos e familiares

  • Grace e Frankie — aborda muitos temas além da amizade; uma reflexão que exploraremos oportunamente

Filmes:

  • Adoráveis Mulheres (Mulherzinhas) — vínculos femininos que sustentam e fortalecem

  • Tomates Verdes Fritos — amizade transformadora e presença silenciosa

  • A Vida Secreta das Abelhas — redes de apoio e afeto feminino em contextos de dor e crescimento



 
 
 

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há 4 dias
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Exatamente isso, amizades-presença.

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Luana Folchini da Costa
Membro efetivo: CFP (Brasil) | OPP (Portugal)

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