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Professor Polvo: um filme sobre aprender a estar com o outro

  • Foto do escritor: Luana Folchini
    Luana Folchini
  • 29 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura

Professor Polvo não é um documentário sobre o oceano. É um filme sobre o encontro. Sobre o que acontece quando alguém, esgotado de si e do mundo, decide voltar a olhar com atenção. O protagonista chega ao mar num estado de cansaço profundo — não apenas físico, mas existencial. Há ali um afastamento da própria sensibilidade, um embotamento comum em tempos de excesso, pressa e desempenho. O mergulho diário que ele se propõe a fazer é um compromisso consigo. Não surge como aventura, mas como refúgio. E, pouco a pouco, como reorganização.


O vínculo que se constrói com o polvo não é imediato, nem forçado. Ele nasce da repetição, da observação silenciosa, do respeito aos limites. Não há posse, não há domesticação, não há promessa. Há apenas presença. Psicologicamente, isso é fundamental: vínculos seguros não se impõem, se constroem no tempo.

A relação entre humano e polvo pode ser lida como uma forma rara de amizade — não baseada na reciprocidade tradicional, na palavra ou na utilidade, mas na coexistência atenta. Uma amizade sem projeção excessiva, que reconhece a alteridade do outro. O polvo não é humanizado; ele permanece outro. E talvez seja justamente isso que torne o encontro tão transformador.

Do ponto de vista da saúde mental, o filme mostra como a presença contínua em um vínculo não invasivo pode funcionar como regulador emocional. O oceano oferece um ritmo diferente, menos acelerado, mais orgânico. O polvo ensina, despretenciosamente, que viver é adaptar-se, proteger-se, recuar quando necessário e, ainda assim, permanecer curioso diante do mundo. Há também uma aprendizagem sobre limites. O vínculo ali não é fusão. O protagonista aprende quando se aproximar e quando se afastar. Aprende que amar — ou cuidar — não significa invadir. Essa é uma lição profundamente psicológica, especialmente num mundo que frequentemente confunde vínculo com controle.

A impermanência atravessa toda a narrativa. A vida curta do polvo confronta o espectador com a finitude e com a impossibilidade de garantir permanência aos vínculos que importam. Ainda assim, o filme não é triste. Ele mostra que a beleza de um vínculo não está na duração, mas na qualidade da presença enquanto ele existe.

Ao final, não há final feliz no sentido clássico. Há transformação. O homem que entra no mar em busca de alívio sai dele mais disponível para a vida, para os afetos humanos, para o cuidado — consigo e com os outros. O vínculo vivido não é perdido; ele é integrado.

Professor Polvo nos lembra que amizade também pode ser silêncio, que vínculo pode existir sem palavras e que algumas relações não vêm para ficar, mas para nos devolver a capacidade de sentir. Às vezes, aprender a estar com o outro é, antes de tudo, reaprender a estar consigo mesmo.


 
 
 

2 comentários

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Priscila Gomes
30 de dez. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Que profundo!! Fiquei mt curiosa ra assistir esse filme...saber mais sobre mantervínculos hj se faz muito necessário.

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Luana Folchini
Luana Folchini
há 6 dias
Respondendo a

É sutil, pq quem ensina sobre o vínculo é o polvo. Mas não é explícito, está nos detalhes.

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Luana Folchini da Costa
Membro efetivo: CFP (Brasil) | OPP (Portugal)

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