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Solidariedade feminina: a força que se constrói em rede

  • Foto do escritor: Luana Folchini
    Luana Folchini
  • 26 de jan.
  • 4 min de leitura

Se no último post falamos sobre a importância das amizades — daquelas pequenas presenças que sustentam, acolhem e protegem — hoje quero propor outra reflexão igualmente válida: a importância da solidariedade coletiva entre mulheres. Porque nem toda proteção vem apenas de gestos íntimos ou de elos próximos. Muitas vezes, o que realmente transforma a vida de uma mulher está na união, no apoio e na construção de redes amplas, que vão além dos vínculos românticos e criam sustentação emocional, social e até política.

Ao longo da história, mulheres enfrentaram barreiras e injustiças que nenhuma poderia superar sozinha, seja na luta por direitos civis, por espaço social ou por reconhecimento de sua dignidade. É nesses contextos que nasce a força da coletividade: quando mulheres se juntam em torno de um propósito maior, criam redes que ampliam vozes, protegem umas às outras e transformam realidades.


O que a ciência diz sobre apoio social e saúde mental

Não é apenas literatura ou sensação de bem‑estar. A psicologia tem mostrado, de forma consistente, que redes de apoio social são fatores de proteção para a saúde mental. Estudos demonstram que pessoas com redes de apoio mais integradas, sejam amigos, familiares ou comunidade, apresentam melhor adaptação ao estresse, maior bem‑estar psicológico e menor risco de sofrimento emocional do que aquelas que estão isoladas ou com redes frágeis (Gaino et al., 2019; Portugal et. al, 1016)

Há pesquisas que mostram que percepções de apoio social, ou seja, sentir que existe alguém em quem confiar e com quem contar, estão associadas a menores níveis de ansiedade, depressão e sofrimento psicológico, além de promoverem resiliência em situações adversas (Omar, 2025). Isso significa que não é apenas a presença física, mas o sentimento de estar amparada que atua como um “amortecedor” das dificuldades emocionais.

Outro estudo observou que padrões de apoio social mais elevados correlacionam‑se com maior qualidade de vida e melhor funcionamento emocional, enquanto redes mais isoladas se associam ao aumento de sintomas negativos (Gaino et al. 2019). Isso é especialmente relevante quando pensamos em mulheres que enfrentam situações de violência, discriminação ou relacionamentos que minam a autoestima, pois a presença de uma rede de apoio é um fator que pode reduzir a intensidade do impacto emocional dessas experiências.

Essa perspectiva não está distante do que falamos sobre amizade no pos anterior

post anterior. Pelo contrário: ela a amplia. Quando mulheres bem‑relacionadas com múltiplos vínculos, íntimos e coletivos, têm suporte afetivo e social, não ficam sozinhas diante de escolhas difíceis; elas acessam mais recursos internos e externos para reconhecer e evitar relações tóxicas ou abusivas, ou para se sentir mais seguras ao sair delas.

A ciência mostra que alguém com uma rede de apoio diversificada não apenas experimenta menos sintomas de sofrimento emocional, como também tem maior capacidade de resiliência, ou seja, maior habilidade de atravessar momentos difíceis e se recompor emocionalmente (Omar, 2025).


Cuidar e fortalecer as redes

Assim como cultivar amizades íntimas é um gesto de cuidado consigo mesma, fortalecer redes maiores, coletivas, sociais e solidárias, também é uma estratégia poderosa de proteção emocional. Isso pode acontecer em grupos de apoio, coletivos feministas, círculos de conversa, estudos, movimentos sociais ou simplesmente na construção de relações seguras e recíprocas.

A reflexão que proponho hoje é esta: quem integra sua rede de apoio maior? Quem te inspira, te dá voz, te valida, te protege? E mais: como você pode contribuir para que outras mulheres também tenham rede, presença e força coletiva?

Quando mulheres se unem, elas não apenas se protegem, elas transformam realidades, ampliam vozes e criam lugares onde sentir, lutar e existir é permitido.

Refletir sobre solidariedade feminina e redes de apoio nos lembra que não precisamos enfrentar desafios sozinhas. Ter amizades próximas e fazer parte de grupos ou coletivos pode fortalecer nossa resiliência, ampliar nossas escolhas e nos proteger de relações que minam nossa autoestima. Além disso, a psicoterapia surge como um espaço seguro para explorar essas conexões, compreender nossos padrões de relacionamento e fortalecer nossa autonomia emocional. Com ela, é possível aprender a reconhecer quando o apoio está presente e quando é preciso buscar estratégias para se proteger, construindo relações mais saudáveis e conscientes.

Se essa reflexão fez sentido para você, considere dar a si mesma esse cuidado: buscar terapia é um ato de coragem e de valorização da própria rede de apoio interior e exterior.


**P.S. Para inspirar e refletir

Aqui vão algumas produções cinematográficas que inspiraram e ilustram o que refletimos neste post:


Batalhão 6888 (2024): onta a história real de mulheres que, diante do racismo e sexismo na Segunda Guerra Mundial, se apoiaram mutuamente para organizar uma tarefa imensa. A trama mostra que, quando solidariedade e propósito se cruzam, nasce uma força coletiva impressionante.

A Voz do Empoderamento (Gangubai Kathiawadi, 2022): Retrata como redes de apoio e liderança coletiva podem surgir em contextos desafiadores, transformando vulnerabilidade em agência e respeito social.

Estrelas Além do Tempo (2016): Conta a história de três mulheres negras matemáticas na NASA que enfrentam racismo e sexismo na década de 1960. Destaca como apoio mútuo entre elas, pequenas alianças e solidariedade em equipe foram fundamentais para superar barreiras.

As Sufragistas (2015):  Revela como a união de mulheres em torno de um objetivo comum: o direito ao voto, foi capaz de ampliar vozes, transformar uma sociedade e proteger aquelas que, isoladamente, não teriam espaço. Solidariedade, coragem e apoio mútuo aparecem como ferramentas de resistência.


Referências:

Gaino, L. V et al. (2019). O papel do apoio social no adoecimento psíquico de mulheres. Revista Latino-americana de Enfermagem, 27. Doi: 10.1590/1518-8345.2877.3157

Omar et al. (2025). The Role of Social Support Systems in Enhancing Mental Health Resilience among Young Adults. International Journal of Research and Innovation in Social Science, 3303-3316. Doi: 10.47772/IJRISS.2025.907000267

Portugal, F. B. et al. (2016). Social support network, mental health and quality of life: a cross-sectional study in primary care. Cadernos de saude publica, 32(12). Doi: 10.1590/0102-311X00165115


 
 
 

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Luana Folchini da Costa
Membro efetivo: CFP (Brasil) | OPP (Portugal)

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