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Wandinha na terapia: construção silenciosa das defesas emocionais

  • Foto do escritor: Luana Folchini
    Luana Folchini
  • 9 de fev.
  • 4 min de leitura

Ao assistir à segunda temporada de Wandinha, fica difícil não perceber que, por trás da ironia afiada, da inteligência estratégica e da postura emocionalmente contida da personagem, existe algo que vai além de um traço de personalidade. Ela não é indiferente aos vínculos. Ela sente, observa, se importa, mas faz isso mantendo a distância. Sua autonomia é quase absoluta, como se depender emocionalmente fosse um risco grande demais.

Na psicologia do desenvolvimento, aprendemos que a forma como uma criança aprende a se vincular está profundamente relacionada à maneira como suas emoções são acolhidas, reconhecidas e reguladas nos primeiros relacionamentos. Não se trata apenas de presença física, mas de disponibilidade emocional. E é nesse ponto que a relação entre Wandinha e sua mãe se torna especialmente interessante.

Mortícia Addams não é uma mãe ausente. Ela é presente, cuidadosa, protetora e, à sua maneira, amorosa. Seus gestos são contidos, suas palavras medidas, e há coerência entre o que sente e o que faz. No entanto, seu cuidado muitas vezes vem acompanhado de antecipação, de controle e de decisões tomadas antes que a filha possa expressar o que sente ou deseja. A intenção é protetiva, mas o efeito pode ser o de uma invasão emocional delicada: aquela que comunica, ainda que sem palavras, “eu sei melhor do que você o que é preciso”.

Quando isso acontece de forma repetida ao longo do desenvolvimento, a criança pode crescer com dificuldade de confiar na própria experiência emocional. Aprende, aos poucos, que sentir, discordar ou expressar fragilidade não é bem-vindo. Não por rejeição explícita, mas por uma validação insuficiente.

A Wandinha parece ter internalizado esse tipo de funcionamento. Ela demonstra grande autocontrole, racionalização constante e pouco acesso às próprias vulnerabilidades. Na linguagem da teoria do apego, seu padrão se aproxima de estratégias evitativas: proximidade emocional é desejada, mas também vivida como ameaça. O vínculo existe, mas precisa ser mantido sob controle. Além disso, é possível observar traços compatíveis com esquemas desenvolvidos precocemente, como padrões inflexíveis e autocrítica elevada. Wandinha é exigente consigo mesma, intolerante à incoerência e altamente sensível à ideia de injustiça. Emoções são tratadas como algo a ser dominado, não compartilhado.

A chegada do irmão mais novo também pode ser pensada dentro dessa dinâmica. Muitas vezes, o primogênito que cresce sendo visto como “forte” aprende, sem que ninguém perceba, que não pode precisar. Enquanto o outro é cuidado, acolhido ou protegido, ele se torna o que “dá conta”, o que "se vira só". Essa experiência não gera necessariamente ressentimento consciente, mas pode fortalecer a crença de que vulnerabilidade não é uma opção legítima.

Nos relacionamentos que Wandinha constrói ao longo da série, esse padrão se repete. Ela é leal, comprometida, protetora, mas se afasta quando a relação exige abertura emocional profunda. Demonstra afeto por meio de ações, não de palavras. Tolera riscos externos melhor do que riscos afetivos. O perigo físico é previsível. O emocional, não.

Na psicologia cognitiva e do desenvolvimento, sabemos que essas estratégias não surgem por acaso. Elas são formas inteligentes (e custosas) de adaptação. São modos de proteger o self em contextos onde a expressão emocional plena não encontrou espaço suficiente. Wandinha, portanto, não é fria. Ela é alguém que aprendeu cedo a ser forte, autocontrolada e autossuficiente, porque essa foi a forma mais segura de existir dentro dos vínculos que teve. Sua autonomia é real, mas também é sua defesa e a sua independência, a armadura.

Ao final da segunda temporada, a mentora de Wandinha afirma: “Reestabelecer seus laços familiares era o primeiro passo para recuperar seu dom”. Essa frase pode ser lida, também, como uma metáfora psicológica profunda. O “dom” de Wandinha não se refere apenas às suas habilidades sobrenaturais, mas à sua capacidade de intuir, sentir, se conectar e confiar em sua própria experiência emocional. Quando ela está distante afetivamente da família, rigidamente protegida por suas defesas, esse acesso se fragiliza. Na psicologia do desenvolvimento, sabemos que vínculos suficientemente seguros funcionam como base para a exploração do mundo e de si mesma. Sem essa base, o self se contrai. Ao se permitir revisitar, elaborar e ressignificar sua relação com a mãe e com a família, Wandinha amplia seu campo emocional. Recupera, assim, partes de si que haviam sido sacrificadas em nome da força.

Essa leitura nos convida a refletir sobre quantas vezes, na vida adulta, carregamos padrões semelhantes. Quantas vezes confundimos maturidade com silêncio emocional. Quantas vezes chamamos de força aquilo que, na verdade, nasceu da necessidade de não depender. Na clínica, esse tipo de história aparece com frequência. Pessoas competentes, responsáveis, autônomas, que funcionam bem no mundo, mas que têm dificuldade em pedir ajuda, confiar emocionalmente e se permitir ser cuidadas. A psicoterapia oferece justamente um espaço diferente daquele vivido na infância: um espaço em que emoções não precisam ser corrigidas, antecipadas ou controladas, mas podem ser compreendidas, nomeadas e integradas.

Ao longo do processo terapêutico, torna-se possível revisar esses modelos internos, questionar crenças rígidas sobre autonomia e vulnerabilidade, e construir formas mais flexíveis e seguras de se relacionar. Não para abandonar a força ou o controle, mas para que eles possam coexistir com a sensibilidade e a confiança. Aprendendo que também isto e potência.

Talvez seja esse um dos maiores convites que Wandinha nos faz: perceber que amadurecer emocionalmente não significa endurecer, mas ampliar o espaço interno para sentir, depender, errar, pedir, receber e, ainda assim, continuar sendo quem se é.

 
 
 

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Luana Folchini da Costa
Membro efetivo: CFP (Brasil) | OPP (Portugal)

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